MATEUS
16.13Quando
Jesus chegou à região de Cesaréia de Filipe, consultou seus discípulos: “Quem
as pessoas dizem que o Filho do homem é?” 14E
eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros Elias; e ainda há
quem diga, Jeremias ou um dos profetas”. 15Então
Jesus interpelou: “Mas vós, quem dizeis que Eu sou?” 16E,
Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. 17Ao
que Jesus lhe afirmou: “Abençoado és tu, Simão, filho de Jonas! Pois isso não
foi revelado a ti por carne ou sangue, mas pelo meu Pai que está nos céus. 18Da
mesma maneira Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha
igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela.
“E este evangelho do Reino será pregado
em todo o mundo habitado, como testemunho a todas as nações, e então chegará o
fim.” MATEUS 24.14
Evangélicos
"Não dá mais para fingir que não vemos. Um a
cada seis brasileiros já é evangélico - e o número continua crescendo". Se você
quer entender o Brasil e antever ofuturo, precisa antes saber como isso foi
acontecer.
por
Sérgio Gwercman
O
texano Kenneth Hagin, nascido em 1917, era uma criança doente. Desde os 9 anos,
ficou confinado na casa do avô. Aos 16, desenganado pelos médicos, infeliz e
preso a uma cama,
tinha poucas esperanças de ver sua vida melhorar. Um ano depois, em agosto de
1934, Hagin teve uma revelação. Ele compreendeu de repente o significado de um
versículo do Evangelho de São Marcos. A passagem do Novo Testamento dizia: “Tudo quanto
em oração pedires, credes que recebeste, e será assim convosco”. Hagin então
ergueu as mãos para o céu e agradeceu a Deus pela cura, mesmo sem ver sinal de
melhora. Então levantou-se da cama. Estava curado.
A
mensagem, que Hagin popularizou por meio de mais de 100 livros, é clara: Deus é
capaz de dar o que o fiel desejar. Basta ter fé e acreditar que as próprias
palavras têm poder. Sendo assim, para os verdadeiros devotos, nunca faltará
dinheiro ou saúde. Essa doutrina ficou conhecida como “teologia da
prosperidade”. A crença foi incorporada anos depois por várias igrejas. Ela é
central no mais impressionante fenômeno religioso do Brasil contemporâneo: a
explosão evangélica.
No
começo, essa explosão se deu em silêncio, praticamente ignorada pelas classes
médias. Os templos evangélicos surgiam nas cidadezinhas perdidas e nas
periferias miseráveis das metrópoles. Já não é mais assim. No primeiro dia de
2004, a Igreja Pentecostal Deus é Amor inaugurou no coração de São Paulo o seu novo templo. A obra tem tamanho de shopping
center, arquitetura de gosto duvidoso e comporta 22 mil pessoas sentadas.
É
cinco vezes maior que a católica Catedral da Sé, lá perto.
Há
meio século os evangélicos são a religião que mais cresce no país. Nos últimos
20 anos, mais que triplicou o número de fiéis: de 7,8 milhões de pessoas em
1980 para 26,4 milhões em 2001, um pulo de 6,6% para 15,6% da população
brasileira. Em algumas cidades, foram criados vagões de trem exclusivos para
crentes, em que as pessoas podem viajar ouvindo pregações bíblicas. Em outras,
não parece longe o dia em que eles representarão mais de 50% dos habitantes.
Com mais de 400 anos de atraso, finalmente estamos sentindo os efeitos da
Reforma protestante que varreu a Europa no século 16.
Um
terreninho do Céu
Evangélicos,
é importante esclarecer, é a mesma coisa que protestantes. As duas palavras são
sinônimas. Ou seja, evangélicas são praticamente todas as correntes nascidas do
racha entre o teólogo alemão Martinho Lutero e a Igreja Católica, em 1517 (veja
infográfico na página 54). O alemão estava especialmente chateado com o
comportamento dos padres, que, segundo ele, tinham virado corretores
imobiliários do céu, comercializando indulgências – vagas no Paraíso para quem pagasse.
Lutero
abriu a primeira fenda no até então indevassável poder papal sobre as almas do
Ocidente. A ele se seguiram outros.
Na Inglaterra, o rei Henrique VIII criou sua própria dissidência do catolicismo
– depois batizada de anglicanismo – só porque o papa não queria que ele se
divorciasse e casasse de novo. Na Suíça, Ulrico Zwinglio e João Calvino aprofundaram
as reformas de Lutero. Zwinglio pregava o princípio que fundamentaria todo o
movimento: o cristão deve seguir apenas a Bíblia (os católicos aceitam
influências de teólogos, como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino). Já
Calvino foi o responsável pela introdução do puritanismo, que combinava regras
rígidas de conduta com uma fervorosa dedicação ao trabalho. No começo do século
20, o sociólogo alemão Max Weber publicou o texto clássico A Ética Protestante
e o Espírito do Capitalismo, no qual atribui a essa invenção de Calvino o
sucesso do capitalismo em países evangélicos.
Todos
esses movimentos estimulavam o fim do monopólio da Igreja sobre a interpretação
da Bíblia. Cabia a todo e qualquer cristão ler as Escrituras e tirar delas o
que quisesse. Os protestantes recusavam a idéia de que um único líder – o papa
– deveria guiar os rumos da religião. Foi isso que começou a fragmentação do
movimento em diversas correntes, com pequenas diferenças doutrinárias. Surgem
os batistas, os metodistas, os presbiterianos...
Mas
o Brasil colonial passou quase imune à avalanche protestante. Houve apenas
algumas exceções, como os calvinistas franceses e holandeses que invadiram o
país – o primeiro culto evangélico por estas terras foi celebrado por franceses
no Rio de Janeiro, em 1557, só 57 anos depois da missa católica inaugural. Era
proibido realizar cultos de qualquer religião que não o catolicismo no
território português.
A
liberdade religiosa no Brasil só veio com a independência, na Constituição de
1824, ainda que impondo restrições de que as reuniões acontecessem em locais
que não tivessem “aparência exterior de templo”. No mesmo ano, alemães fundaram
a primeira comunidade luterana do Brasil. Logo depois chegaram as correntes
missionárias, como os metodistas, dispostas a pregar nas ruas para salvar
almas. Eles caíram nas graças da elite intelectual republicana que,
impressionada com a “ética protestante”, defendia a presença de evangélicos
como condição para a modernização do país.
Mas
os protestantes que prosperaram no Brasil pouco tinham a ver com a tal ética
protestante de Weber. No início do século 20, a fundação de duas igrejas seria
decisiva para definir o perfil evangélico nacional: a Congregação Cristã no
Brasil, inaugurada em São Paulo pelo italiano Luigi Francescon, em 1910, e a
Assembléia de Deus, aberta um ano depois em Belém pelos suecos Gunnar Vingren e
Daniel Berg. Apesar da origem européia, eles chegaram ao país via Estados
Unidos, onde se envolveram com uma nova corrente protestante, o pentecostalismo,
um grupo que crescia em popularidade por lá desde a virada do século.
Começou
aí o que o sociólogo Paul Freston chama de “a primeira onda do pentecostalismo
brasileiro”. O movimento era desaprovado tanto por católicos quanto pelos
protestantes “históricos”, como são conhecidas as correntes diretamente ligadas
a Lutero e Calvino. Nem uns nem outros gostavam da principal característica da
doutrina pentecostal: a exacerbação dos poderes sobrenaturais do Espírito Santo
(a palavra “pentecostalismo” vem de uma passagem da Bíblia que diz que, num dia
de Pentecostes – a Páscoa judaica –, o Espírito Santo desceu aos apóstolos e
começou a operar milagres). O mais notável desses poderes é a capacidade que
Deus tem de curar imediatamente qualquer problema de saúde – daí as cenas de
aleijados abandonando muletas e míopes pisando nos óculos. O pentecostalismo
cresceu na classe baixa, promovendo cultos de adoração fervorosa e improvisada,
bem dissonantes dos protestantes tradicionais, tão formais quanto contidos.
Para
participar das novas congregações, os fiéis eram obrigados a se submeter a
rígidas normas comportamentais. Os pentecostais eram os “crentes”
estereotípicos: mulheres de cabelos compridos e saia, homens de terno e Bíblia
na mão. As palavras essenciais para entender suas rotinas de vida são
ascetismo, ou a recusa de usufruir os prazeres da carne, e sectarismo, o
isolamento do restante da sociedade. Por trás delas, está a idéia de que o
cristão deve se manter concentrado em Deus. Só assim ele pode evitar que o
Diabo ganhe espaço na sua vida. Para os pentecostais, o mundo é simples: o que
não é de Deus é o Diabo.
A
Deus é Amor, aquela que acabou de abrir um megatemplo no centro de São Paulo, é
uma das mais rigorosas entre as pentecostais. Ela proíbe freqüentar praias,
praticar esportes ou participar de festas. Às mulheres, é vetado cortar o
cabelo e depilar. Crianças com mais de 7 anos não podem jogar bola, graças a um
versículo bíblico que diz “desde que me tornei homem, eliminei as coisas de
criança”. Tantas regras têm compensação: para os pentecostais, o melhor da vida
está reservado aos fiéis para depois da morte.
Até
a década de 50, esse modelo reinou sozinho no pentecostalismo nacional. Fez
sucesso, mas ficou restrito a grupos relativamente pequenos. A chegada da
“segunda onda”, no entanto, traria uma novidade. É o que se convencionou chamar
de “neopentecostalismo”. Em 1951 desembarcou aqui a Igreja do Evangelho
Quadrangular, inaugurando no país o pentecostalismo de costumes liberais.
“Todas essas igrejas que fazem sucesso hoje são nossas filhas, netas ou
bisnetas”, diz o pastor Neslon Agnoletto, do conselho nacional da Quadrangular.
De fato, inovações como os hinos com ritmos populares, a forte utilização do
rádio e regras de comportamento menos duras, todos ingredientes indispensáveis
do “evangelismo de massas”, foram práticas importadas pela Quadrangular,
fundada nos Estados Unidos em 1923.
Deus
é um office-boy
Para
resumir, neopentecostalismo quer dizer que Monique Evans, Gretchen e Marcelinho
Carioca podem agora se considerar “crentes”. Para isso, algumas adaptações
aconteceram: saem os homens de terno e as mulheres de pêlos nas pernas, entram
pessoas que se vestem com roupas comuns e não se animam a seguir normas rígidas
de conduta (veja na página 57 as diferenças entre pentecostais e
neopentecostais). A primeira inovação foi riscar do mapa o ascetismo, o
sectarismo e a crença de que a melhor parte da vida está reservada para o
Paraíso. “A preocupação dos neopentecostais é com esta vida. O que interessa é
o aqui e o agora”, afirma o sociólogo Ricardo Mariano, autor de Neopentecostais
– Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil.
Outra
diferença é a radicalização da divisão do Universo entre Deus e o Diabo. Para
os neopentecostais, os homens não são responsáveis pelos atos de maldade que
cometem: é o Diabo que os leva a pecar. Numa sessão de descarrego da Igreja
Universal, o pastor explicou que, se o fiel enfrenta um problema há mais de
três meses, é provável que esteja carregando um encosto. “Se a dificuldade
completar um ano, daí não há dúvida: a culpa é do demônio”, disse para a
congregação. Ele não se referia só a entraves financeiros ou comportamentais. A
receita vale para tudo, inclusive para doenças incuráveis. Assim, expulsar o
demônio do corpo é a receita única para todos os males, de casamento infeliz
até câncer no pulmão.
O
ritual é feito aos gritos de “sai, capeta”, às vezes com lágrimas escorrendo
pelo rosto e transes que terminam no exorcismo. Os cultos tornaram-se mais
ativos, incluindo aplausos para Jesus e música gospel. Mas a inovação mais
profunda do neopentecostalismo foi a aplicação da teologia da prosperidade,
aquela exposta no primeiro parágrafo desta reportagem. Graças a ela, o
neopentecostalismo ganhou o apelido de “fé de resultados”.
“A
teologia da prosperidade faz o fiel encarar Deus como um office-boy”, diz o
cientista da religião e pastor Paulo Romeiro, autor de Supercrentes – O
Evangelho Segundo os Profetas da Prosperidade. “O crente dá ordens e determina
o que pretende. Não há qualquer reconhecimento das fragilidades humanas e de
suas necessidades em relação a um Deus superior”, afirma Romeiro. No Brasil,
além da Universal, a Renascer em Cristo, a Sara Nossa Terra e a Internacional
da Graça de Deus adotam a teologia da prosperidade.
A
força de enxurrada com que o neopentecostalismo cresceu desorganizou todo o
protestantismo. “Há uma verdadeira perda de identidade no movimento evangélico
mundial. O pentecostalismo flexibilizou suas exigências comportamentais e até
os protestantes históricos passaram a aceitar a participação mais ativa do fiel
no culto e algumas manifestações sobrenaturais”, afirma o pastor batista
Joaquim de Andrade, pesquisador da Agência de Informações da Religião. Mais e
mais, boa parte do mundo protestante aceita a teologia da prosperidade.
A
onda de mudança foi bater até onde a Reforma de Lutero não tinha chegado: nas
praias do catolicismo. A influência neopentecostal sobre a renovação
carismática católica é tão grande que seu maior expoente no Brasil, padre Marcelo
Rossi, é acusado de ter gravado hinos religiosos tirados de templos
evangélicos.
Promessas
de um novo mundo
Mas
por que cada vez mais pessoas abandonam suas religiões para tornarem-se
evangélicas? Nos anos 60, a nova religião era vista como uma forma de migrantes
de zonas rurais enfrentarem a falta de valores e regras da sociedade moderna e
estabelecerem relações de solidariedade na metrópole. Demorou dez anos para
essa hipótese ser desacreditada por estudos que mostraram que as igrejas eram
compostas igualmente pelos pobres nascidos e viventes na cidade e no campo.
Houve
espaço para teorias conspiratórias: o avanço evangélico seria um plano dos
Estados Unidos (ou do Diabo) para dominar a América Latina. A hipótese foi
defendida a sério pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, que na
década de 80 enviou memorando ao Vaticano, citado no livro de Mariano,
afirmando que a CIA, aliada à direita brasileira, acelerava a “expansão dessa
religião alienante no continente para frear a proliferação da Igreja Católica
progressista”.
Mas
essas explicações não convencem ninguém e o avanço neopentecostal exigiu um
novo foco nos estudos. Em seu mais recente trabalho, o ainda não publicado
“Análise Sociológica do Crescimento Pentecostal no Brasil”, Mariano afirma que
as motivações para a conversão estariam nas soluções mágicas oferecidas. “Uma
grande parcela da população não tem acesso ao serviço de saúde – e, quando tem,
recebe atendimento precário e mal entende os médicos. É muito mais fácil, e faz
mais sentido, acreditar que os problemas são causados pelo demônio e se tratar
na igreja”, afirma o sociólogo.
Não
é apenas a questão médica que está em jogo. A dualidade entre Deus e o Diabo é
uma das mais eficientes respostas para a eterna pergunta sobre como é possível
existirem tantas coisas ruins. Um presidiário pode culpar a influência do
demônio pelo passado violento – uma explicação para o sucesso da religião nas
prisões. Essa dualidade também pode estar na raiz da popularidade evangélica
entre ex-viciados em drogas – e de sua comprovada eficácia na luta contra o
vício. O apelo pode efetivamente ajudar ex-criminosos e ex-viciados a deixarem
seus “maus hábitos” para trás. Com isso, os neopentecostais respondem
satisfatoriamente às questões dos nossos tempos – coisa que outras religiões
nem sempre conseguem fazer.
Juntando
tudo, o que se tem é uma religião que escancara uma ambição materialista e
imediata na relação com Deus. Um apelo e tanto, que parece ter especial atração
para os mais pobres. Estaríamos, portanto, diante de uma mudança naquilo que as
pessoas esperam da experiência religiosa? “Não”, responde o estudioso de
religiões Antonio Flávio Pierucci, da Universidade de São Paulo. “A maior parte
das religiões tem esse viés materialista. As pessoas sempre rezam com o
objetivo de pedir e receber algo. A diferença é que os evangélicos assumem essa
faceta sem se envergonhar.”
Seria
injusto, no entanto, listar apenas explicações sociológicas para justificar a
onda de conversões. Poucas religiões têm tanta disposição para atrair fiéis
como os evangélicos. Templos são abertos nos mais distantes rincões e pastores
dedicam-se com fervor. As igrejas estão à frente das demais no entendimento de
que evangelizar é como convencer um consumidor a comprar. “Os depoimentos de fiéis
na TV e no rádio são o apelo de marketing para demonstrar a eficiência dos
serviços”, diz Ari Pedro Oro, antropólogo da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul e organizador do livro Igreja Universal do Reino de Deus. As igrejas
seduzem com um produto atraente e oferecem bom serviço. São religiosamente
adeptas da mais pura e simples mentalidade empresarial.
Crescei
e mutiplicai
Em
novembro do ano passado, um evangélico foi ao Programa do Ratinho pedir a
devolução dos dízimos que havia dado à igreja. Argumentava que o pastor lhe
prometera prosperidade em troca do dinheiro. Sem melhorar de vida, o fiel, como
se fosse um consumidor lesado, foi ao Ratinho pedir o dinheiro de volta.
Essa
história ilustra de modo brilhante a relação que as neopentecostais criaram com
seus fiéis-clientes. Elas prestam um serviço. E eles pagam. É bom lembrar que
dar dinheiro a Deus, seja através da caridade ou de doações, é parte da
doutrina de diversas religiões, incluindo todas do braço judaico-cristão. Com a
teologia da prosperidade, no entanto, o dinheiro ganhou nova função. Agora é
preciso dar para receber. Num de seus livros, Edir Macedo, o líder da
Universal, explica que devemos formar uma “sociedade com Deus”. “O que nos
pertence (nossa vida, nossa força, nosso dinheiro) passa a pertencer a Deus; e
o que é d’Ele (as bênçãos, a paz, a felicidade, a alegria, tudo de bom) passa a
nos pertencer”, afirma o bispo.
É
uma leitura polêmica do Evangelho. A idéia de que dar dinheiro é parte de uma
relação de troca com Deus desperta calafrios em muitos religiosos. “É uma
contradição. A Reforma protestante começou justamente porque Lutero se levantou
contra a venda das indulgências”, diz o pastor Paulo Cezar Brito, líder da
Igreja Evangélica Maranata, uma pentecostal que rejeita a teologia da
prosperidade.
“Templo
é dinheiro”, diz a maldosa adaptação do ditado popular. “Deus é o caminho, Edir
Macedo é o pedágio”, diz outra. Na cabeça de muita gente, as igrejas
evangélicas são ótimas opções de carreira para quem pretende enriquecer facilmente.
Não dá para negar que muitos realmente ganharam dinheiro com a fé alheia – em
especial os líderes das grandes igrejas (veja no quadro da página 60 como se
sobe na carreira evangélica). Como em qualquer empresa moderna, pastores hábeis
que trazem muito dinheiro para a igreja ganham bem – ninguém confirma a
informação, mas comenta-se que alguns salários se parecem com os de astros de
futebol, na casa das várias dezenas de milhares de reais. Mas essas afirmações
escondem também um preconceito. Em termos legais, não há diferença entre um
templo evangélico e qualquer outro local de cultos religiosos. A Constituição
garante a todos – evangélicos, católicos ou budistas – a mesma isenção de
vários tributos, entre eles o IPTU e o Imposto de Renda.
Além
disso, o crescimento da concorrência faz ser cada vez mais difícil sobreviver
entre tantas denominações evangélicas (conheça as cinco maiores igrejas no
quadro da página 61). Calcula-se que uma congregação precise ter no mínimo 50
integrantes para recolher dízimos e doações em quantidade suficiente para
cobrir as despesas mínimas, como aluguel e contas de luz e água. Nessas horas,
ser a religião dos pobres não é vantagem. Por isso, cada denominação procura
seu nicho de atuação. A Assembléia de Deus prefere abrir templos dentro de
bairros isolados, enquanto a Universal opta pelas grandes vias de acesso – uma
decisão que pouco tem a ver com a fé, segue mais a lógica da competição de
qualquer mercado capitalista.
O
maior país católico do mundo pode estar se tornando uma nação de maioria
evangélica? Dificilmente, concorda a maioria dos especialistas. Mas eles
discordam na hora de prever o ritmo do crescimento. De um lado, estão os que
acham que o boom já passou e que a Igreja Católica, com a renovação
carismática, equilibrou o jogo. Do outro, pesquisadores que vêem no frágil
compromisso dos brasileiros com a religião um prato cheio para os
neopentecostais. Cerca de 80% dos nossos católicos se dizem não-praticantes. É
um enorme mercado para os evangélicos.
Não
é à toa que a maioria dos convertidos vem do catolicismo. Mas, na hora de
afirmar a identidade e escolher um adversário, o pentecostalismo ataca o
candomblé e a umbanda. E vai na jugular, às vezes escorregando para a
intolerância religiosa. Em quase todos os templos é possível ouvir que essas
religiões cultuam o Diabo. Também há casos de ataques a terreiros estimulados
por pastores. Pode-se dizer que a briga contra as religiões afro-brasileiras, e
não contra o catolicismo, o verdadeiro rival, seja uma estratégia de marketing.
Quando enfrentaram os católicos, os evangélicos levaram um contra-ataque duro,
que envolveu denúncias de charlatanismo e estelionato e ameaçou a sobrevivência
das igrejas, além de provavelmente afastar fiéis. A popularidade dos
evangélicos chegou ao fundo do poço quando um pastor da Universal chutou na TV
uma estátua de Nossa Senhora Aparecida (os evangélicos não cultuam imagens).
Mas,
embora esses episódios possam dar a impressão de que o fanatismo religioso
esteja em alta no Brasil, muitos especialistas defendem a tese de que o
crescimento evangélico seja um indício do contrário: de que cada vez mais gente
rejeita a religião. É o que sugerem pesquisas mostrando concentrações de
evangélicos nas mesmas regiões onde há altos índices de pessoas “sem religião”
– caso do estado do Rio e da zona leste paulistana. “As pessoas estão
experimentando uma nova crença. Se perceberem que não está dando certo, que
Deus não é tão fiel, podem desistir da busca”, diz o sociólogo Pierucci.
“Abandonar a religião oficial é o primeiro passo de saída do mundo religioso”,
afirma.
Um
indício de que a conversão ao mundo evangélico significa um arrefecimento do
fervor religioso é o fato de que as neopentecostais exigem poucas mudanças nos
fiéis. O resultado é que, quanto mais crescem, menos os evangélicos mudam a
cara do país – bem ao contrário da revolução que ocorreu na Europa com as
idéias de Lutero e Calvino. Prova disso é a programação da Rede Record,
comprada pela Igreja Universal com o dinheiro do dízimo, que pouco difere das
concorrentes.
Talvez
o trunfo evangélico para conquistar almas seja sua capacidade de adaptação. Com
a rejeição à centralização da interpretação bíblica herdada da Reforma
protestante, qualquer um pode abrir um templo e pregar como quiser. Assim, enquanto
seus “irmãos” se expandiam em áreas pobres, a Igreja Bola de Neve cresceu 1
100% em três anos orando para os ricos. Seus dez templos, cuja marca registrada
são as pranchas de surfe como púlpito e os hinos religiosos em ritmo de reggae,
funcionam em áreas de classe média-alta de São Paulo e cidades de praia como
Florianópolis, Itacaré e Guarujá. O público são jovens da classe A e B, com
curso superior. Para quem está acostumado a fiéis pobres e pouco instruídos, a
Bola de Neve é uma surpresa desconcertante. Para os evangélicos, somente mais
uma prova de que a obra de Deus chegará a todos os corações.
Extraído
da Revista Superinteressante,
197 – Fev. 2004


