A irrelevância
em questão não parte da igreja como agencia evangelizadora da sociedade, mas da
sociedade como produto deste cristianismo majoritário brasileiro – e por este prisma a sociedade brasileira
reflete bastante daquilo que temos oferecido como cristãos: um cristianismo
irrelevante do ponto de vista político-social. É incompreensível como “50
milhões” de evangélicos e mais de “120 milhões” de católicos (juntos são quase
85% da população); fizeram do Brasil um país tão corrupto, violento e medíocre?
Lembremo-nos que com a missão de Cabral na busca pelas Índias, ao descobrirem
sem querer o Brasil e ao aportar aqui, chegou também à igreja. O cristianismo
está aqui antes de nossas terras serem chamadas de Brasil e depois de cinco
séculos – tornou-se majoritário no país; no entanto este mesmo cristianismo tem
se mostrado incapaz de formar uma nação relevante por seus princípios, ideal e
exemplos – a citar pelos políticos que tem.
A vergonhosa
corrupção que parece ser endêmica e sistêmica aos políticos brasileiros não é
só responsabilidade de combate da presidente Dilma, do Senado federal, da
Câmara dos deputados, do supremo tribunal de Justiça, do Ministério Público
estadual e federal – a culpa é da
Igreja católica e dos protestantes; a responsabilidade é também dos evangélicos
tradicionais, pentecostais e neopentecostais com o seu cristianismo vertical
sempre omisso nos fundamentos de uma nação que agora está em crise! Nosso
cristianismo majoritário foi incapaz de desenvolver qualquer educação de vida à
política e que nos permita construir qualquer ponte sobre o abismo de
incertezas que nossa gente atravessa por conta de seus representantes. O
discipulado que temos oferecido tem produzido cidadãos que só vivem de extremos
como movimentos à base da teologia da libertação, ou de fantasias como heresias
e anomalias litúrgicas, culto a personalidades, mega vigilhões, sessões de
descarrego, unções proféticas, correntes da vitória, discussões teológicas sem
fim, campanhas de prosperidade, construções faraônicas, mercado e comércio da
fé e todo tipo de “crente de quatro paredes” que só pensa em si e em seus
sonhos de sucesso e realização pessoal – ACORDA IGREJA!
Nosso cristianismo é verticalizado, pouco
fraterno, minimamente humanitário, irresponsavelmente apolítico e indiferente
diante de várias necessidades sociais.
Eu não acredito que a solução para o apagão moral e ético do país esteja nos
discursos e projetos dos novos políticos cristãos – a menos que esses sejam
feitos discípulos dessa nova e necessária “educação política que emerge do
verdadeiro cristianismo”. A saída dessa crise de valores morais e políticos
está no despertar para o autêntico e verdadeiro cristianismo – em ser uma
igreja que interage com comunidade, que fala com os vizinhos, andarilhos,
desempregados, jovens, crianças, executivos, políticos; que se importa com a
saúde, educação, oportunidades; que reflita sobre a melhoria da rua, bairro,
cidade e num contexto geral do próprio país – é onde temos falhado como
cristianismo participante da construção de um Brasil melhor. Eu não proponho de
jeito nenhum uma política que tenha como premissa só legisladores católicos ou
evangélicos porque a história já mostrou onde isso vai dar (e também o Estado
deve continuar laico e para todos) – a argumentação gira em torno dos
fundamentos e valores do cristianismo na formação do novo caráter político
brasileiro – é uma semeadura, é para nossos filhos e netos; e assim, eles serão
mais brasileiros que nós (porque participarão do que interessa ao país e não só
daquilo que interessa as nossas denominações).
Preocupa-me o
fato de que a maioria dos políticos envolvidos nos esquemas de corrupção que
ocorrem em nossa nação se declarem cristãos! Que tido de influência, instrução
e formação cristã esses indivíduos receberam? O que foi que viram na igreja?
Quais os ensinos que retiveram? As perguntas são muitas para uma triste e óbvia
resposta: nada disso adiantou a essas pessoas. Eu sei que do ponto de vista
bíblico elencaremos frações textuais que acentuam a dureza da natureza humana e
sua corrupção – mas, a maioria dos políticos corruptos são cristãos – seria o
nosso discipulado “muito mole” para esmiuçar “esses corações de dura cerviz”? Eu prefiro reconhecer que não preparamos
nossos membros e congregados para a política e os deixamos a mercê de
instruções social-comunistas ou neoliberais e essas bases invadem o lugar que
já deveria estar ocupado por princípios sólidos de uma política fincada no amor
ao próximo, honestidade e na justiça. Nossos políticos cristãos são
exatamente aquilo que lhes demos – nada! São pouco efetivos, não representam o
cristianismo (a menos que isso lhes interesse) e se a Polícia Federal despejar
o balaio da corrupção brasileira – muitos outros estarão emaranhados lá. O que
o cristianismo majoritário não foi capaz de dar ao Brasil, obviamente o país
não tem; políticos que façam uma boa política!
O cristianismo brasileiro (já que é
majoritário) precisa estabelecer os fundamentos e influenciar as mentes e
comportamentos da nova geração de nossa terra através de um processo de
formação que necessita começar dentro de nossos templos e que se estenda à
sociedade - não
como catecismo de nomenclatura religiosa, mas sobre as bases do Evangelho,
visando desenvolver um caráter que fará política para o bem de todos e não para
si mesmo. O cristianismo precisa combater a corrupção que articula em seus
altares e púlpitos; que maquina em seus gabinetes; que arma esquemas políticos
em seus sínodos, presbitérios e convenções. A corrupção que dominou a política
brasileira é a mesma que antes, corrompeu muitos de nossos clérigos e pastores
fazendo-os transformar nossas comunidades em propriedades e ministérios em
heranças patriarcais. Para mudar a cara do Brasil é preciso tocar a alma da
nação – e o instrumento de tocar almas – a Palavra de Deus – o verdadeiro cristianismo
tem, só precisa começar a utilizá-lo também com o foco de influenciar quem fará
a política brasileira nos tempos vindouros.
Padres,
pastores, teólogos, conferencistas, dirigentes e professores é preciso abrirem
espaço em vossas homílias, estudos, proposições, ministrações, orientações e
ensinos para a política também. É preciso criar e estabelecer uma reflexão
contínua sobre uma nova política que tenha como base a formação da pessoa – e
não meramente a simpatia por um partido político ou ideologia social; se faz
necessário discutir os problemas locais dentro de nossas comunidades e os rumos
nacionais dentro dos valores e perspectivas do cristianismo. Pais e mães é tempo de conversarmos com os
nossos filhos e também falarmos de política, de bases e princípios que poderiam
transformá-la de fato numa ciência para o bem do povo e não numa oportunidade
de roubar do povo. A igreja não é política, mas precisa influenciar a
política de seu tempo com sua presença, personalidade e educação fornecida.
Parece que nosso cristianismo majoritário incentiva à todas as profissões,
menos a formação de políticos decentes – e essa omissão tem custado caro ao
país.
Precisamos
aguardar a volta de Jesus, mas não podemos negligenciar com a educação de
nossos filhos e com o tipo de políticos que serão ou terão de lidar se até lá
nosso Senhor não voltar.
Oremos por nosso
país e autoridades e que Deus abençoe o Brasil e a cada um de nós!
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