Mt
8.28-34; Mc 5.1.20; Lc 8.26-39
Esta é
uma história intrigante da Bíblia que nos causa algum assombro e cria em nossa
mente vários pontos de interrogação.
Certa feita, atravessando o Mar da Galiléia Jesus chega a
Decápolis (As Dez Cidades); e ao pisar os pés nessa terra, inicia-se um
confronto entre a Luz e as trevas.
Diz a Bíblia que havia naquela região um homem (embora
Mateus relate dois homens) possesso por espíritos malignos que se sentiam donos
daquela redondeza.
Acompanhando os Evangelhos, podemos entender que se tratava
de um ser muito poderoso, que amedrontava e afugentava qualquer pessoa que
pensasse em resisti-lo; esse indivíduo era destemido e irreverente, não
respeitava nem obedecia nenhum tipo de autoridade, viesse ela de onde vier.
Algumas vezes se deixava prender simplesmente com o intuito
de mostrar sua força e braveza, pois quando as autoridades sentiam-se seguras
por tê-lo capturado, num ímpeto de fúria arrebentava as correntes e despedaçava
as algemas, nem mesmo as grades podiam detê-lo.
Era uma história aterrorizante para os moradores daquela
redondeza, pois ninguém podia passar por lá, e se alguém insanamente o tentasse,
seria violentamente afugentado. Diz a Bíblia que para deixar claro quem mandava
no pedaço e pra que ninguém se esquecesse disso, esse ser saía na madrugada ou
até mesmo à luz do dia gritando e clamando. Conjecturando, imagino as pessoas
dormindo, os pais com seus filhos no silêncio da madrugada e de repente serem
despertados por um grito estarrecedor de um ser invencível, violento e
altamente perigoso que clamava: - Esse território é meu; e ai daquele que
tentar me deter ou pôr os pés nessa terra.
Sua fama corria por toda aquela região, nenhum viajante
ousava passar por ali de dia ou de noite; não havia nenhum homem corajoso o
suficiente e tão poderoso que pudesse desafiá-lo.
Quando alguém simplesmente se aproximasse, então aquele
sujeito nu, barbudo, descabelado, encardido pela poeira daquele lugar, saía dos
sepulcros rosnando como um animal selvagem e logo punha em fuga os ousados
intrusos.
Foi pra esse lugar hostil que Jesus resolveu viajar,
chegando até mesmo a enfrentar uma terrível tempestade no mar, tempestade essa
que colocou em dúvida a fé de seus discípulos.
Somente dois tipos de pessoas poderiam desejar conhecer
aquele território, um judeu totalmente insano e irreligioso, ou o Próprio Filho
de Deus, que enxerga além das aparências, que do nada pode fazer tudo e vai
aonde ninguém mais queira ir.
Quem sabe alguém conhecendo a fama daquele indivíduo,
tentasse desencorajar a Jesus dizendo: - Por que o Senhor iria pra lá? Não vale
a pena; as pessoas são rebeldes e irreligiosas; e além do mais, existe um ser
altamente perigoso que habita aquelas redondezas.
Mas Jesus precisava ir, pra mostrar para aqueles demônios
que se sentiam os reis do pedaço, que se achavam senhores daquela região, que
ali estava chegando Aquele que é o Rei dos reis e Senhor dos senhores; e apesar
de aquela potestade maligna usufruir de certo poder, acabara de chegar naquele
lugar Aquele que tem todo o poder.
Quando Jesus aporta do barco, um clima de muita tensão toma
conta do ambiente; o que aconteceria? Quem se renderia? O Nazareno, filho de
José e Maria que tinha poder para curar enfermos, ressuscitar mortos e que até
mesmo desafiava os escribas e fariseus hipócritas com uma nova interpretação da
Lei, ou o príncipe das trevas?
Jesus não fez rodeios, não mudou de direção, foi diretamente
ao local dos sepulcros a levar luz em meio às trevas.
Diz a Bíblia que ao longe o endemoninhado avistou Jesus;
imagino aqueles que O acompanhavam se recuando e escondendo-se atrás do Mestre;
mas algo surpreendente acontece, algo inusitado, algo jamais visto por olhos
humanos; aquele ser violento e irreverente se prostrou aos pés do Senhor
dizendo: - “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Peço-te que
não me atormentes”.
Após
alguns segundos de extremo silêncio Jesus lhe pergunta: “Qual é o teu nome? Ao
que lhe respondeu, dizendo: Legião é o meu nome, porque somos muitos”.
E Jesus
então dá a sentença: - “Sai deste homem, espírito imundo”.
O
Senhor trata diretamente com as potestades que agem por detrás do ser humano.
E então
um fato polêmico acontece. Aqueles espíritos pedem autorização a Jesus para que
entrem em uma manada de dois mil porcos que pastavam por ali, ao que o Senhor
lhes concede.
Após
serem possuídos pelos espíritos, todos os porcos daquela manada se precipitaram
no mar e se afogaram.
Aquele
sujeito, outrora atormentado e excluído do convívio social e familiar
encontra-se vestido, assentado e em perfeito juízo. E a multidão que os cerca
fica extasiada por tamanha autoridade e poder.
Isso
seria com certeza motivo para muito júbilo, pois Jesus acabara de expulsar
daquele lugar os responsáveis por tanto terror que assombrava a região; agora
as pessoas não mais precisariam conviver com aqueles perigosos espíritos, as
crianças poderiam brincar tranquilamente e os viajantes trafegarem livremente
sem serem afugentados ou mesmo violentados por aquele terrível mal.
A
restituição daquele homem à sua família e à vida em sociedade seria uma porta
aberta pra que Jesus operasse em Decápolis inúmeros milagres. Mas as
consequências de tamanho confronto com o reino das trevas foram outras.
Diz a
Bíblia que os tratadores dos porcos que se afogaram, ao verem o incidente
saíram desesperados, e aos gritos avisaram os outros criadores do que havia
sido feito e como morreram os dois mil porcos. Apavorados, todos correram até
lá para se certificarem do que estaria acontecendo; chegando ao local encontraram
uma multidão e o homem liberto dos espíritos contando tudo o que havia
acontecido.
Se
fosse em outra época ou em outro lugar, imaginaríamos aquelas pessoas dando
glórias a Deus, convidando Jesus a entrar em suas casas, abençoar seus filhos e
curar os enfermos. Se fosse em outra época ou em outro lugar...
Porque
nesse momento a Bíblia registra um dos versículos mais tristes de suas páginas:
“E eis que toda aquela cidade saiu ao encontro de Jesus e, vendo-o, rogaram-lhe
que se retirasse dos seus termos” (Mt 8.34).
Podemos
nos perguntar como alguém poderia após ver tamanho milagre de libertação e
estando diante do Filho de Deus, pedir para que se retirasse de sua terra.
Talvez
como cristãos, isso seja incompreensível para nós; e para amenizar esse
conflito teológico até nos perguntemos o porquê de Jesus ter permitido tamanho
prejuízo aos porqueiros, entendendo que se fosse nos dias atuais esse valor
chegaria a aproximadamente quinhentos mil reais.
Antes
de qualquer julgamento prematuro quanto ao consentimento de Jesus sobre esse
fato, é preciso que se entenda que Jesus fez exatamente o que precisava ser
feito. Na verdade aquela mortandade de porcos foi um favor que Jesus prestou
aos habitantes daquele lugar, pois os porcos eram considerados animais impuros
(Lv 11.7) e aqueles que os consumissem ou tocassem em seus cadáveres estariam
amaldiçoados por Deus (Dt 14.8; Is 65.4; 66.17).
Uma vez
misturados e convivendo com esses animais, estariam afastados de Deus e suas
bênçãos.
Então,
há duas possíveis explicações à conduta ingrata daquele povo; a primeira seria
devido ao prejuízo financeiro, pois não seria fácil recuperar tal valor, mesmo
sabendo que a alma daquele homem liberto valia muito mais do que todo dinheiro
do mundo.
E
quantos em nossos dias se encontram exatamente dessa forma, colocando as coisas
terrenas e bens materiais acima de Deus e da salvação. Preferem estar lavando
seu carro a estar na casa de Deus, fazem de sua casa ou seu dinheiro o seu
deus. Quantos que não abrem mão de um churrasquinho, um passeio, uma pescaria,
uma partida de futebol, ainda que seja uma disputa entre suas equipes favoritas
pela TV, para irem à igreja; quantos presos ao facebook, novelas, seriados,
inclusive aqueles chamados de novelas cristãs pra enganar os ingênuos e
imaturos. Ainda há outros que não aceitam tomarem qualquer tipo de prejuízo,
pois logo se revoltam, praguejam, levam para a justiça e desaparecem da igreja;
são para esse tipo de pessoas o alerta que Paulo deixou a Timóteo em 1Tm
6.7-10, 17-19.
A
segunda explicação se enquadra no fato de que quando Jesus chega a um lugar,
sua prioridade é limpar aquela vida de toda imundícia. Abrir portas, dar
emprego, chaves de casas e carros... Tudo isso vem depois de ter o nome escrito
no Livro da Vida e vivermos com a certeza da salvação; pois quantos hoje,
seduzidos e enganados pelos pregadores da Teologia da Prosperidade, desfrutam
ou querem desfrutar das riquezas terrenas sem terem certeza de qual será seu
destino final. Os homens daquela cidade entenderam que se Jesus continuasse
caminhando pelas redondezas encontraria outras criações de porcos, ou seja,
mais e mais impurezas; e para evitar que o Senhor alimpasse todo o lugar de sua
imundícia pediram para que Jesus se retirasse, escolhendo assim viverem entre
os porcos.
Jesus
tem um imenso prazer em nos abençoar e o Espírito Santo quer fazer em nós
morada; mas para isso é preciso que a casa esteja limpa. O Senhor não pode
habitar em meio às imundícias, portanto a maior preocupação de Deus na vida de
um indivíduo é limpá-lo de toda impureza e fazer dele templo e morada de Seu
Santo Espírito.
Ao
olhar para nós Jesus sonha o melhor para nossas vidas, deseja pra nós a melhor
casa, o melhor carro, o melhor casamento, um grande ministério; mas nada disso
acontecerá se não permitirmos que os porcos venham morrer.
Quem
sabe olhando para mim ele queira matar os porcos da minha mente. Quantas
impurezas têm trafegado em meus pensamentos? Quantas vezes tenho planejado,
maquinado ou projetado coisas que não agradam a Deus. Quantas imundícias estão
presentes comigo em meu local de trabalho, na escola, na rua ou mesmo em meu
leito matrimonial? Esses porcos da minha mente têm que morrer.
Ao
olhar para mim, talvez Jesus queira matar os porcos dos meus olhos. Será que
não tenho olhado para coisas que não deveria? Quando estou sozinho vendo TV, ou
em frente ao computador, ou quando estou na rua, lendo um livro ou vendo uma
revista; em que meus olhos estão voltados? Esses porcos precisam morrer.
Será
que os porcos não estão em meus ouvidos? Se fizer uma busca nos arquivos de meu
celular ou de meu computador pessoal, não serão encontradas algumas (ou muitas)
músicas mundanas em meio aos hinos de louvor a Deus? Quem sabe só uma ou duas
canções daquele cantor favorito, nada demais; afinal ninguém é santo. Esses
porcos têm que morrer.
Quem
sabe olhando para nós Jesus nos veja louvando nos quatro cantos do mundo; ou
pregando a Palavra de Deus por toda a Terra; mas... Será que nossos lábios
estão libertos das impurezas? Não há em nossa boca alguns porcos que precisam
ser eliminados?
Muitas
vezes estamos tagarelando um hino na igreja, mas durante o dia todo usamos
nossa língua para falar mal do pastor, do Ministério, criticar a saia da irmã
fulana de tal, o comportamento do filho ou filha do obreiro que prega na
igreja; queremos ser cantores ou pregadores, queremos orar e ser atendidos por
Deus, mas com essa mesma boca contamos uma “mentirinha” todos os dias, usamos
de engano pra nos dar bem em algum negócio, passamos a tarde toda fofocando com
o vizinho, levamos adiante assuntos que denigrem a imagem de outrem. Jesus quer
muito usar nossos lábios, mas para isso, os porcos têm que morrer.
Jesus
disse que a seara precisa de trabalhadores, mas nossas mãos precisam estar
limpas de toda imundícia para que estejamos aptos a trabalhar para o Senhor. Em
sua Santidade o Senhor não usará mãos que pegam daquilo que não lhes pertence,
que toca onde não deveria, que se arma quando se sente ofendido. Afinal,
precisamos ser limpos de mãos (SL 24.4). Esses porcos têm que morrer.
A
Palavra de Deus diz: “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia
as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a
salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina!” (Is 52.7).
Mas
estão nossos pés realmente limpos? Eles estão nos levando somente para aquilo
que agrada a Deus?
Quantas
vezes usamos nossos pés para pisar em lugares que contaminam nossa alma.
Entrando em ambientes inadequados para aqueles que servem a Deus; caminhando
com pessoas que nada sabem de aliança com Deus e que não desejam uma mudança de
vida; e não temos essa mesma diligência para pisar nos átrios do Senhor. Não
adianta usar a famosa desculpa “estou lá para evangelizar”. Nosso Deus não
aceita mistura, pois que comunhão tem a luz com as trevas? O Salmo 1 e verso 1º
deixa claro esse assunto. Esses porcos têm que morrer.
E
esquadrinhando os nossos corações, o que Jesus encontrará? Ensinando sobre a
necessidade de se conservar o coração limpo Ele disse a seus discípulos: “Porque
do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição,
furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas coisas que contaminam o
homem...” (Mt 15.19-20). O que Ele encontrará em nosso coração hoje? O fruto do
Espírito ou as obras da carne?
“Porque
as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério,
prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias,
emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices,
glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como
já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus”.
“Mas
o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade,
benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança.
Contra
estas coisas não há lei. E os que são de Cristo crucificaram a carne com as
suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em
Espírito. Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros,
invejando-nos uns aos outros.” (Gl 5.19-26).
Nosso
coração não tem sido morada contínua desses porcos que nos afastam da presença
de Deus, impedindo-nos de alcançar os milagres que desejamos? Pensemos nisto: Os porcos têm que morrer!
Pr.
Odair Padia


