Entenda quando o cuidado
ultrapassa o limite do aceitável e passa a prejudicar a criança.
Seu filho está tentando amarrar o tênis e você corre para
terminar a tarefa por ele. Um amigo chama a criança para passear no parque e
sua reação é de... medo. Você teme que ela se machuque, se perca dos adultos, fique
desamparada.
Se você se identifica com essas situações, talvez seja hora
de refletir se a sua vontade de proteger o seu filho está passando do limite.
Há até uma metáfora para caracterizar os pais superprotetores, que desejam
sempre estar por perto, de modo a evitar qualquer sofrimento ou decepção do
filho. São conhecidos como “helicóptero”. Com a hélice sempre girando, a
aeronave sobrevoa o território incessantemente.
A qualquer sinal de
perigo na terra, ela está pronta para pousar e prestar socorro.
Você deve estar pensando: mas meu filho tão frágil precisa
ser protegido. Claro, mas com equilíbrio. “O limite é tênue.
Cuidar é observar o outro e fazer uma análise realista do que está acontecendo. A superproteção é baseada na emoção e na dificuldade de tolerar uma possível frustração”, explica a psicanalista Anne Lise Scappaticci, da International Psychoanalytical Association (IPA).
Cuidar é observar o outro e fazer uma análise realista do que está acontecendo. A superproteção é baseada na emoção e na dificuldade de tolerar uma possível frustração”, explica a psicanalista Anne Lise Scappaticci, da International Psychoanalytical Association (IPA).
Vamos pensar em outro exemplo: seu filho está com notas
baixas na escola. Diante disso, você pode conversar com ele e perguntar se está
sentindo dificuldade, arrumar um cantinho especial para o estudo em casa e
estabelecer um horário para que ele faça as lições.
Já o pai superprotetor, no anseio de ajudar, ficaria ao lado
e resolveria até alguns exercícios pela criança. Dessa forma, preveniria a
decepção do filho em não conseguir solucionar de imediato um problema.
O que essa atitude dos adultos representa?
De acordo com a psicanalista, a superproteção costuma surgir de pessoas amorosas, bem intencionadas, mas que não conseguem tolerar a própria ansiedade para educar o filho.
De acordo com a psicanalista, a superproteção costuma surgir de pessoas amorosas, bem intencionadas, mas que não conseguem tolerar a própria ansiedade para educar o filho.
Elas são, na maior parte, inseguras e tendem a se antecipar
e não deixar que a criança viva experiências novas. Outra característica comum
é desconsiderar a idade e o crescimento do filho – o casal o educa como se
fosse sempre pequeno e indefeso.
As consequências da
superproteção
Na intenção de fazer o melhor para o filho, o jeito
“helicóptero” de alguns pais acaba atingindo o desenvolvimento da criança. “Ela
cresce com a sensação de ser frágil”, afirma a psicanalista.
Se não é convidada para uma festinha na escola e você
prontamente compra um presente para compensar a decepção dela, está
contribuindo para que não experimente a dificuldade.
Estudos mostram os efeitos negativos de superproteger os
filhos. Um deles, publicado no Journal of Child and Families Studies, descobriu
que esse comportamento dos pais aumenta o risco de a criança se sentir
incompetente, sofrer depressão e ansiedade - consequências que muitas vezes
podem surgir a longo prazo.
Outra análise, feita a partir da revisão de 70
levantamentos, envolvendo mais de 200 mil crianças, da University of Warwick,
no Reino Unido, revelou que a superproteção aumenta também o risco de bullying.
OK, a gente sabe como é duro presenciar momentos de
sofrimento e frustração dos nossos filhos. Mas, se eles não existirem, algumas
habilidades não serão desenvolvidas.
Acredite: a tensão e até a solidão podem contribuir na formação de um adulto independente e consciente, disposto a enfrentar o mundo – sem esperar que tudo seja feito por ele –, a arriscar e... errar.
Acredite: a tensão e até a solidão podem contribuir na formação de um adulto independente e consciente, disposto a enfrentar o mundo – sem esperar que tudo seja feito por ele –, a arriscar e... errar.
São situações que preparam o seu filho para o mundo.
É trabalhoso encontrar o ponto certo entre negligência e
superproteção.
Que tal, em vez de ser
um pai ou mãe helicóptero, você se tornar um “submarino”?
Essa metáfora, citada no livro Fun-Filled Parenting: A Guide
to Laughing More and Yelling Less, de Silvana Clark, alude ao perfil de adulto
que está por perto, cuidando do filho, mas não tão visível. Só sobe para a
terra quando realmente for necessário, mas não abandona nem deixa de entrar em
contato com a criança. Cuidar é um investimento.
Quando seu filho estiver treinando para algo novo, como
comer com talheres corretamente, fique ao lado, incentivando – e não faça por
ele. Se for ao clube com amigos, se informe das regras do local e dos horários
mais seguros para frequentá-lo. Solte-o aos poucos, de acordo com o
amadurecimento que ele manifestar. Sim, é possível cuidar bem sem
superproteger.
Para ajudar você, pontuamos algumas situações em que a
hélice do helicóptero tende a começar a girar... E saiba o que fazer para que
seu filho cresça e viva experiências enriquecedoras e divertidas (mesmo longe de
você).
No parque
Ao dividir os
brinquedos...
Sinais de superproteção: Seu filho leva vários baldes e
pazinhas para o parquinho. Quando chega ao local, um menino que está na areia
não tem nenhum brinquedo.
Você logo pensa: “Eles vão brigar e disputar pelos objetos.”
Para prevenir o atrito, escolhe um dos baldes e já empresta para o garoto.
O que fazer: Essa seria uma boa oportunidade para se relacionar com um
novo amigo. Fique por perto, mas deixe-os à vontade. Se o outro menino quiser
brincar junto, sugira que seu filho empreste um dos brinquedos. E se ele disser
não?
Explique que é legal quando todos se divertem, ainda mais
juntos. Faz questão de ficar com o balde azul? Então pode dar a pá vermelha
para o novo colega.
Ao se aventurar no
playground
Sinais de superproteção: A criança está morrendo de vontade de experimentar o
escorregador mais alto, mas você está com medo de que ela se machuque. Então
acha melhor que ela não experimente o brinquedo.
O que fazer: Se você tiver medo que seu filho caia do escorregador,
fique ao lado dele e o oriente para subir as escadas com cautela. Use um tom de
voz suave, sem apavorar ou deixar a criança tensa.
Em geral, os pais superprotetores tendem a projetar seus
medos nos filhos.
Em vez disso, você pode contar seu temor a ele, mas
estabelecendo uma parceria. Não precisa fingir que é um super-herói – diga que
tem medo de montanha-russa, mas que está tentando superar isso. Sugira a ele
que vá com outra companhia, como seu companheiro. Afinal, cada um tem suas
inseguranças e elas não precisam ser transmitidas nem escondidas.
No computador
Sinais de superproteção: Seu filho quer navegar na internet e jogar no computador,
mas você teme que ele sofra cyberbullying, tenha acesso a conteúdos impróprios
ou seja vítima de golpes online. Por isso, proíbe qualquer contato com esse
tipo de tecnologia.
O que fazer: Essa proibição total não é positiva. Provavelmente, ele irá
à casa de um amigo e aproveitará para descobrir o que há de tão misterioso na
web.
É importante analisar a idade da criança e apresentar a ela
o que condiz com sua faixa etária.
Fique ao lado para orientá-la e explique os motivos de ainda
não permitir que ela entre em um site de notícias, por exemplo. O diálogo é um
bom caminho para que seu filho entenda a razão de uma regra.
A permissão ao acesso à internet deve ser gradual, assim
como o tempo que pode ser dedicado a ficar em frente à tela.
Longe de casa
Sinais de superproteção: A criança é convidada para um acantonamento (quando dorme
na escola) ou para passar a noite na casa do amigo. Você liga para a mãe do
colega ou para a diretora e faz todas as perguntas possíveis sobre o programa.
E pior: demonstra para seu filho que não está satisfeito com o convite.
O que fazer: Em geral, as crianças são como esponjas: por mais que você
não diga explicitamente que não quer que seu filho durma fora de casa, ele
absorverá sua angústia. E, consequentemente, captará a insegurança e passará a
ver a experiência como algo perigoso. Dessa forma, é provável que ele desista
da brincadeira.
A consequência pode vir
a longo prazo.
A criança perceberá que é a pessoa mais importante para os
pais e que eles fazem questão de sua presença em tempo integral.
Por isso,
passam a achar que, se saírem com amigos, estarão deixando a família
abandonada.
Gostar de outra pessoa, fora desse círculo, passa a ser encarado
como uma “traição” a quem tanto o ama.
Nesse momento, tente se lembrar de que será um passo
importante para a independência da criança.
Se é um desejo do seu filho, incentive-o a passar a noite na
escola ou na casa do amigo e diga tudo o que será divertido nessa experiência.
É claro: você pode ligar para os pais do colega ou para a
diretora, desde que faça questionamentos pertinentes. Deixe seus contatos, caso
ocorra alguma emergência e precise ser informado.
Mas nada de querer saber detalhes desnecessários, como o
horário exato em que a criança se deitará, combinado?
Afinal, esse é um momento
de lazer, e uma exceção na rotina não será prejudicial.
Na escola
Ao voltar às aulas
Sinais de superproteção: Seu filho chora assim que chega à porta da escola. Você
fica com o coração partido, segura-o no colo e volta para casa, onde estará
mais seguro.
O que fazer: Tente acalmá-lo e explique que está tudo bem. Nos dias de
adaptação, fique na escola – seu filho se sentirá mais seguro com sua presença
próxima. Aos poucos, ele ganhará confiança e nem se lembrará do medo! Desistir
e retornar ao lar é o mesmo que dizer à criança que ela tem razão e que a
escola realmente é um lugar perigoso.
Ao saber que seu filho
se envolveu em uma briga
Sinais de superproteção: Você descobre que seu filho brigou com um colega de sala.
No mesmo momento, telefona para a mãe do amigo e pede satisfações.
Vai até a
escola e discute com a coordenadora, por considerar um absurdo que qualquer
conflito ocorra na instituição de ensino.
O que fazer: É importante que seu filho aprenda a se relacionar e a
administrar tensões. Primeiramente, pergunte a ele o que motivou a discussão.
Depois, quando estiver mais calmo, converse com a coordenadora da escola e a
informe sobre o conflito, para que ela tome as providências necessárias – como
contar sobre o ocorrido para a professora, por exemplo.
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